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tarde e a más horas

um atrasado por natureza

tarde e a más horas

um atrasado por natureza

A sentir-me: Catalão

Jordi nascera em mil novecentos e noventa e dois. nativo de barcelona, nascera no bairro de dreta de l'eixample. habitava, pois, no coração da cidade.

 

desde a avinguda diagonal, à "sua" vizinha casa milà de gaudi, passando pela sagrada família, parc guell, camp nou, arc de triomf, castel de montjuic até la rambla, barcelona não detinha segredos para Jordi. nem podia. conhecia a cidade de lés a lés e da cabeça aos pés - permitindo-me uma pequenina aliteração.

 

catalão de gema. por nascimento e por hereditariedade - numa confluência a roçar as leis do destino da vida de seus pais: a mãe nascera catalã a norte, em girona; o pai nascera catalão a sul, em tarragona; tendo confluido ambos para barcelona onde estudaram, onde riram, onde viveram, onde sentiram, onde se apaixonaram e onde trouxeram Jordi ao mundo.

 

durante a sua infância nunca percebera muito bem a razão da sua identidade oficial. tendo nascido num país chamado espanha, e sendo lhe atribuída uma nacionalidade espanhola, sempre lhe causara confusão o porquê de não perceber muito bem o que diziam os meninos de madrid, nas várias vezes que lá fora em visitas escolares, também pensara porque é que não havia meninos chamados jordi, marc ou pep em madrid e não percebia porque é que na sua turma não havia meninos chamados fernando, juan ou vicente. a questão da bandeira era outro problema, sempre fora ensinado que tinha duas, a rojigualda e a estelada. a professora maria dizia que a primeira era mais importante, os seus pais diziam que a segunda era a única que importava.

 

crescera. 

 

tinha hoje vinte e cinco anos, licenciado em direito pela facultat de dret da universitat de barcelona. tornara-se militante da generalitat mal entrara na universidade.

 

defensor acérrimo da independência e soberania da catalunha face a espanha, tomara parte ativa no movimento independentista desde dois mil e catorze aquando do primeiro referendo sobre a independência. o primeiro passo do culminar do dia de hoje tinha sido dado, num sonho desejado por milhões ao longo de vários séculos.

 

no passado dia um de outubro, Jordi, fora um de muitos que saíra à rua e manifestara o seu sim no segundo referendo realizado. mas o seu sim tinha tido um custo, para ele e para os seus. testemunhara em primeira mão a repressão violenta pelas autoridades de um país que ele não via como seu. pouco importava agora, essa reação apenas servira para agilizar o que Jordi acreditava, agora, ser inevitável. a independência da catalunha era uma realidade. 

 

a alegria de poder ver nascer os seus filhos como catalães, num estado soberano, era tudo o mais que desejava.

 

e essa alegria estava prometida para hoje, terça-feira.

 

terça-feira, prometia ser o primeiro dia da catalunha, nação soberana. Jordi era um catalão orgulhoso.

 

 

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isto não passa de um pequeno conto ficcionado. serve, única e exclusivamente, para ilustrar um ponto de vista. o meu ponto de vista. sou totalmente a favor da independência da catalunha. sempre fui, e sempre serei. 

 

 

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 Fonte

A escrever: Epílogo

conseguiu.

 

o despertador assinalara as cinco e meia da manhã. o homem também é multifunções ao contrário do que se pensa. abrira o olho esquerdo, ainda estremunhado, e em simultâneo a sua mão direita procurava o smartphone, pousado na mesinha de cabeceira da sua infância, de forma a desligar aquele interruptor polifónico. sentia o calor da sua cama a fugir e a dispersar-se rapidamente devido ao movimento automático do seu corpo. o lençol obedecia ao seu despertar oscilante.

 

how can i do, de anwar, invadia agora a extensão do seu quarto. enquanto a melodia discorria, ouvindo-se a voz declarando perdidamente o seu amor como se apenas à custa desse sentimento sobrevivesse, levantara-se da cama. gostava daquela hora da noite. lembrou-se de uma notícia onde lera que o pico de inatividade humana era atingido às cinco e meia da manhã.

 

uma hora depois, encontrando-se já no centro da cidade ainda deserta, apreciava a imensidão daquela avenida pintada em tons de escuridão e luz fantasmagórica, mas não para ele. a escuridão reconfortava-o e o silêncio ao seu redor tornava-se no seu melhor parceiro de treino. era a noite mais comprida do ano, e embora não se registasse vivalma, toda a cidade mantinha um ténue registo de vida assinalado pelas luzes natalícias que marcavam o aproximar da festividade.

 

enquanto alongava, procurara a recordação de si, exatamente naquele lugar, àquela hora, um ano atrás. essa retrospeção momentânea aumentara agora a sua motivação para enfrentar os quatro graus negativos que um dispositor turístico marcava. lutara arduamente por tudo o que tinha alcançado, mas a sorte nunca o abandonara, e não podia deixar de se sentir agradecido pelo bafejo de fortuna que descera sobre si. se fosse ligado às leis da física, como newton ou einstein, sem dúvida que este seria o seu annus mirabilis.

 

Um ano maravilhoso. as palavras saíram vagarosamente da sua boca. sobre as mãos apertadas entre si e levadas à boca soprava uma última vez na tentativa de aumentar a temperatura e combater aquele frio invernoso. estava pronto para o início de mais um dia.

 

Mais do que pronto. sorriu, enquanto ouvia os primeiros acordes da música de sempre. a distância fora percorrida.

 

conseguiu.

A sentir-me: Não Famoso

hoje aconteceu uma tragédia. mais uma tragédia. neste jardim plantado à beira-mar há tendência para as tragédias sucederem-se, ainda para mais no verão.

 

hoje uma avioneta aterrou de emergência numa praia tendo provocado a morte a duas pessoas, uma das quais, uma criança de apenas oito anos. é trágico. um acidente trágico.

 

a tvi24 conseguiu chegar à fala com o pai da criança falecida. um pai que, a meu ver, em completo choque revestiu-se de uma personalidade fria - e que a meu ver meio louca e corajosa - para critcar o que achava ter de (e direito a) criticar. nada contra. nem mesmo contra a comunicação social neste segmento - do pai da criança. mas e logo os episódios que se seguiram em catadupa? as alusões ridículas a que se fazem para fazer do que não é notícia, notícia.

 

jornais desportivos como abola e ojogo fazem notícia com o facto de um basquetebolista do benfica ter protegido os pilotos. eu pergunto, tem realmente teor de notícia o facto do sujeito jogar basquetebol no benfica? e se em vez disso, fosse um picheleiro da damaia? um distribuidor de bolas de berlim do cabedelo? um desempregado de vila velha de ródão? fosse qualquer um destes a defender os pilotos, seria notícia? claro que não, tanto, que a própria notícia revela ao que vai. o basquetebolista do benfica foi dos poucos - sinal de que haviam mais - a protegerem os pilotos. os outros poucos não merecem destaque. utiliza-se assim uma tragédia para salientar a uma cor clubística, numa tentativa de obter méritos que não existem a não ser o da própria pessoa, enquanto cidadão, que a tomou, ao ponto de fazerem do homem um herói improvável. bem, no que toca a probabildiades, sendo a praia em questão na caparica e o sujeito jogando no benfica, deveriam ter perguntado a naturalidade a todos os que lá estavam, e quanto mais longe eles residissem, mais heróis improváveis eram, na óptica do pasquim jornal. é incompreensível para mim este pseudo jornalismo.

 

mas não só. outra notícia, agora sem teor desportivo, mas com teor, no mínimo, estúpido. primeiro ponto. joão quadros tira o filho do areal, instantes antes de avião cair. para começar, o grau de fama do sujeito. de certo que os jornais prefeririam que ao invés do joão quadros fosse uma outra figura pública com mais exposição mediática, talvez numa escala de cr7 aos posts da maria vieira, mas face à inexistência de qualquer famoso de grau superior a joão quadros, lá tiveram de se contentar com este. segundo ponto. o título da notícia refere "instantes", bem, para mim, instantes, são questões de segundos, é aquela diferença que vai do beijo que se arriscou ao estalo que se levou só porque vimos na miúda coisas que afinal não existiam. instantes, é o período de tempo que vai de ouvir o passos coelho a falar em suícidios até perceber que a única coisa que se tinha suicidado tinha sido a sua dignidade. instantes, normalmente, é o tempo que o correio da manhã demora a colocar um repórter no local da notícia. agora o que não são instantes, é um pai ter uma espécie de premonição, ir do bar onde estava, ao mar onde o seu filho estava, buscá-lo, regressar com ele para o bar, e só depois reparar que afinal uma avioneta aterrava ali perto. não. instantes, tiveram aqueles que se conseguiram baixar, vendo a avioneta a sobrevoar por cima deles, à distância de um fio de cabelo. 

 

sinto profunda tristeza pela qualidade do jornalismo de hoje em dia. esse sim, tem vindo a despenhar-se constantemente, aqui e além, permanecendo sempre em rota descendente.

A sentir-me: Diletante

este tempo mata-me e dá cabo de mim. a pobre alma que habita em mim detesta a ociosidade com que faço das férias um tempo inútil. sentado à sensivelmente uma hora e trintra minutos - só para não parecer tão inútil - conto carros sentado na esplanada como quem conta ovelhas num torpôr de lume brando que não deixa o sono aproximar-se.

 

é estranho, até dormi bem.

 

na minha pose de esfinge veraneante - se é que isso existe -, permaneço impávido e sereno, excepção feita aos longos suspiros e às folhas dos maias que vou virando, cavalgando a trote - tal como carlos da maia - no adensar da trama, momento em que carlinhos chega a sintra com o único propósito de ver a boazona da irmã com quem ele vai aprender "com quantos paus se faz uma canoa".

 

óculos de sol e chapéu de palha na cabeça. perdoem-me, de cânhamo, porque o chapeleiro insistiu fortemente nesta característica, revoltar-se-me-ia (bem sei que esta terminologia está errada, mas dane-se) se não lhe fizesse agora justiça. a esplanada está desabitada e deserta, à excepção da minha pessoa, tal como aquelas aldeolas dos interiores do interior do país durante os outros meses, aqueles que não são o que se inicia hoje.

 

acho que vou pousar o livro, talvez dar uma volta, esticar as pernas e inutilizar o resto do tempo da tarde de forma mais útil do que sentado a contar carros e aventuras incestuosas. falar com as pessoas, ou até parler em vez de falar. acho que vou à procura de um prazer que me ocupe o tempo. o livro já esgotou a sua quota-parte. sim, vou ver o rio, a frescura da pouca água que o rio tem irá, prazerosamente, revigorar-me e tirar-me deste mudo e quedo tédio que me assola.

 

este tempo mata-me. bonjour a quem aparecer desse lado, esteja à vontade, se não me encontrar, fui por aí e volto já.